Invenção do vermelho

Sabe, duas divindades, situadas no meio do métrico-cronológico. Aliás, ambas haviam inventado o tempo. Logo em seguida, inventaram a divisão, sem planejamento ou esboço, ao passo que surgiu entre elas uma fagulha-bípede. Esta se desdobrou em duas, três, cinco, vinte, mil, bil progressiva, espontânea e vorazmente, afastando mais e mais uma divindade da outra, e o resultado colonizou o meio. Com o desdobramento quântico avassalador de humanos, cada divindade, empurrada dali, afastou-se a ocupar, isolada, um pólo oposto mas não antagônico. Ali, divididas pelo extenso espaço-gente. Consternadas, sobreveio uma crosta de melancolia que aterrou a faculdade da lembrança, adormecendo-as, em posição de pedra. Os seres humanos se alargavam, enquanto. Horizontal, matemática e irregularmente, até, após decorridas eras e eras, esbarrarem-se na divindade a roncar no extremo à esquerda, acordando-a. Esta, vendo o quão parecia agradável viver humana, integrou-se à massa, a crescer desordenada, até alcançar a outra extremidade, à direita, e despertar o outro deus que, encostando no povo, conectou-se a ele todo, e recobrado, recordou-se da existência daquele outro deus, agora agregado e naturalizado às gentes. A segunda divindade, arrasada, logo inventa a vingança, pois sentiu que a primeira, partícipe do organismo-condutor, havia inventado a traição. Furiosa, pensou em matar todos. Portanto, um a um, de centenas a bilhões, seria impossível até mesmo para um deus. A divindade então extraiu uma palavra simétrica de seu arsenal, e cônscia da dificuldade e demora caso fosse matar um por um, decidiu encravar uma palavra afiada na jugular do senso de humanidade. Após um bocejar deleitoso tão preciso quanto orgástico, contemplou a menstruação – derramada na forma do tapete soberano – a qual havia acabado de inventar.
Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 17h03
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