PREPÚCIO


Hematoma sim, maquiagem o caralho!


 

O advogado-chefe aconselhou-me a providenciar um par de óculos com lentes escuras. Pareço um dálmata: o olho empretejou. O nariz, antes pendente para a esquerda, agora sinaliza a Alckmin. Tentei a diplomacia. Mas assim como no segundo round do duelo (ou seria dueto?) eleitoral, na pacatez interiorana se distribui o vale-verdura, vale-transporte, vale-refeição, vale-mentira, vale-ringue, vale-tudo. Domingo pretérito apanhei. Cinco socos, e uma copada mal sucedida. Levei na cara. No terceiro soco pedi arrêgo, interrompendo a torcida organizada sentada ao fundo do bar (sempre nele). O sujeito me agrediu porque “se sentiu” ignorado: “(...) quem é você pra me dar as costas?! (...) só porque agora é um doutor?!” Ignorei bosta nenhuma. Aliás, não sabia da presença do gaudério nas dependências. Se soubesse de sua presença, talvez demonstraria indiferença também. Qual o mal nisso?

Algum nacional já experimentou perguntar, durante interurbano internacional, aflito, a uma criança de três anos, filha do amigo irlandês, onde ele está? Desesperador, né? A gente apela até para a mímica. O papo com o boécio fluía no mesmo nível de aproveitamento. O calhorda-eleitor se imbuiu do mesmo reflexo-lema adotado – e apregoado – por muitas gangues plantonistas: o não cooptado ao partido deve ser caçoado; o opositor (quem não votar no candidato assinalado) caçado: ironia, inversão de valor. Concidadãos rabugentos reprovam minha acídia eleitoral – ou, segundo reza o mito vigente, o principal instrumento da democracia: o direito ao sufrágio. Verbete galante, né? Rima com o “ágil” político a ascender e minar modestos projetos viáveis (distópicos). A saquear, maviosamente, a parca economia, e encalacrar o assalariado ora detrás de grades-siglas. Blablabla. A vangloriar-se da arraigada metodologia bandeirante, da sedimentada miscigenação ociosa – e gabosa disso –, a compensar-se com a exportação do soberano humor-tradição, peculiar do gladiador pé-rapado brasileiro, de Havaianas, a sambar, sob a cadência gringa.  Blablabla. Ah. Sufrágio também se casa bem com o “frágil” – a um tempo só – encurralado e resignado votante, quando tecla o “menos ruim”. 

Se o voto representasse uma poderosa arma nas mãos de quem sabe escolher, o eleitor não levaria tanta surra do candidato eleito. O poder de escolha de representantes do povo significa direito coisíssima nenhuma, em virtude de ser o sujeito consciente da cidadania coagido, e até punido, se não exercer tal favor. O brasileiro se envolve na briga que parece gostar de apanhar. Há uma maneira de soquear colarinhos impecáveis: recuar e desmantelar o ringue cujas regras, meios de defesa e ataque permitidos competem ao covarde interesse estatal  regimentar. Quem leva vantagem: o eleitor ou o eleito? Pôncio Pilatos lavou suas mãos; eu o rosto inchado. O Brasil apanha porque joga limpo. Ah se o voto fosse facultativo e ninguém comparecesse na sua seção para votar... Utopia. Ingenuidade. Unanimidade impossível. Sempre remanescerá o paspalho seduzido pelos produtos de limpeza produzidos, embalados e esterilizados por Dudas Mendonças da vida.

Tanto o cacique A quanto o pajé L apresentam um discurso diurético a escoar antes mesmo da sonhada posse. A nação-taba, adotante da cultura "vale a pena ver de novo", considera seus candidatos ideais heróis, e sussurra qual a tiete, ao vê-lo engravatado como homem branco distinto, vertical, idôneo, casado, limpo, religioso, sujando-se com a graxa-ralé, comportando-se como o bom mocinho. O povo, deslumbrado com o arremedo, vota porque se sente enaltecido ao exercer a suposta cidadania civicamente cônscio, e não porque é necessário.

De qualquer modo, todo santo dia vou tomar socos na cara. Se ignoro alguém, polidamente, enquanto bebo, apanho dele, porque minha conduta inócua autoriza-o. Daí a polícia comparece no local, mas não lavra o malsinado BO – pois o Maguila evadiu-se do local tomando rumo ignorado  – acobertado pelo dono do bar. As testemunhas entram num OVNI e somem. E a vítima – ou ladrão de auto-estima? – desconhece o paradeiro do pugilista. Os PMs me conduzem ao Pronto Socorro. As médicas, quase solícitas, pedem-me para eu mesmo me lavar na pia, com um pano suspeito no tocante à textura, cor, cheiro, origem, função. “Tome aqui o atestado de corpo de delito, caso pretenda processar o sujeito.” Respondo que mereci a surra. Sem ranço, asseguro não ir ferrar o vencedor do pugilato (termo circunstanciado de ocorrência na 43ª DEPOL, ação no Juizado Especial Criminal = dois anos de contenda: eu, hein!), pois não mereço sequer receber uma cesta básica – a micropena provavelmente na qual o pugilista incorrer-se-á, se condenado (portanto, sendo o pião-peão (brinquedo na mão de adultos e crianças) que é, não disporá de recursos suficientes para arcar com as custas processuais, honorários advocatícios e diligências de oficial, sem o prejuízo do sustento próprio e da filha, sendo assim – pasmem! – recorrerá aos auspícios da Justiça Gratuita,  à luz da Lei nº 1.060/50, como sói suceder, no único escritório da Defensoria Pública disponível na Comarca, onde trabalho, ocasião em que será atendido pelo assistente-doutor aqui.

Vou desfilar com lesões corporais leves dolosas recebidas de partidários também. Tanto dos da direita, quanto dos da esquerda, centro. Recuso-me a votar em A ou L, por conseguinte, sou incluído nalgum cadastro de Schindler. Tomo, na cara roliça, socos-pontapés-copadas-ameaças-fodasses. Mas tomo também vergonha na cara: não vejo no espelho nenhuma vítima. Prefiro assumir minha condição transitória de dálmata e contínuo fracote (com um olho roxo), a perambular lento qual um urso panda (com dois olhares negros) acovardado detrás de um par de óculos, ou, genuflectido, detrás do “santinho”, contíguo, que o decepcionou. No Brasil, o voto compulsório camufla um ato ditatorial, pois só há verdadeira democracia quando se pode optar entre participar ou não de uma briga, da qual somente o eleitor que sai com hematomas, lesões e seqüelas mais graves.



Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 21h45
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Golpe doce



impossível se esconder do amor:
ouvi-lo implica ir ao encontro direto
da verdade sobre si mesmo.



Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 08h24
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