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Um tapa entre dois

Por Zalibarek (http://www.belvederegallery.com/artist_more.php?id=3#)
A exposição direta e constante à sensatez pira.
Qualquer um endoidece sendo alguém.
Há quem diga como se precaver e remediar.
A quem?
Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 19h54
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Dois tapas: um no branco no preto e outro no preto no branco
Constranger-me-ia sentar à mesa com tanta gente detentora de elevado padrão de vida. Não que com isso ateste experimentar um agachado status, mas porque não vislumbro idoneidade de minha parte para distinguir um padrão de outro. Não me compete. Imprudência delegar a meus juízos a tarefa de manifestar orgulho ou vergonha, seja de qual for o padrão de vida, se detenho em meus domínios um padrão de morte.
Um homem comporta idéias; um corpo, casulos. Grandes idéias não se comportam. Cada um com sua idéia larval aspira a patente da mariposa, embora não consiga ir além do pó nocivo (re)pousado em suas asas. A mariposa voa e ao mesmo tempo transporta a conseqüência tóxica que reveste suas asas. Só sobe se aceita levar o veneno a cair dos céus – sobre os olhos dos que não voam além do que vêem.
Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 17h40
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Invenção do vermelho

Sabe, duas divindades, situadas no meio do métrico-cronológico. Aliás, ambas haviam inventado o tempo. Logo em seguida, inventaram a divisão, sem planejamento ou esboço, ao passo que surgiu entre elas uma fagulha-bípede. Esta se desdobrou em duas, três, cinco, vinte, mil, bil progressiva, espontânea e vorazmente, afastando mais e mais uma divindade da outra, e o resultado colonizou o meio. Com o desdobramento quântico avassalador de humanos, cada divindade, empurrada dali, afastou-se a ocupar, isolada, um pólo oposto mas não antagônico. Ali, divididas pelo extenso espaço-gente. Consternadas, sobreveio uma crosta de melancolia que aterrou a faculdade da lembrança, adormecendo-as, em posição de pedra. Os seres humanos se alargavam, enquanto. Horizontal, matemática e irregularmente, até, após decorridas eras e eras, esbarrarem-se na divindade a roncar no extremo à esquerda, acordando-a. Esta, vendo o quão parecia agradável viver humana, integrou-se à massa, a crescer desordenada, até alcançar a outra extremidade, à direita, e despertar o outro deus que, encostando no povo, conectou-se a ele todo, e recobrado, recordou-se da existência daquele outro deus, agora agregado e naturalizado às gentes. A segunda divindade, arrasada, logo inventa a vingança, pois sentiu que a primeira, partícipe do organismo-condutor, havia inventado a traição. Furiosa, pensou em matar todos. Portanto, um a um, de centenas a bilhões, seria impossível até mesmo para um deus. A divindade então extraiu uma palavra simétrica de seu arsenal, e cônscia da dificuldade e demora caso fosse matar um por um, decidiu encravar uma palavra afiada na jugular do senso de humanidade. Após um bocejar deleitoso tão preciso quanto orgástico, contemplou a menstruação – derramada na forma do tapete soberano – a qual havia acabado de inventar.
Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 17h03
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Prevenção I, por Ricardo Wagner

Um aim agem Ouum man uald erest riçõ esla ud at ório?
R.:
Um rec ado-l ente Sob reaere çãop ern ic ios a Ese uc ont ágio.
Cui dad o: Ri scos d ev aza ment o-p io.
His tor ic amen tet est ado.
DST = doen çasant amen tetran smis sível.
Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 20h18
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Prevenção II, por Ricardo Wagner

Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 20h17
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Prevenção III, por Ricardo Wagner

Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 20h16
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Prevenção IV, por Ricardo Wagner

Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 20h14
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Sexo metaprecoce I - intimidade flagrada durante a transição 2006/2007, por Ricardo Wagner

Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 14h40
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Sexo metaprecoce II - intimidade flagrada durante a transição 2006/2007, por Ricardo Wagner

Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 14h39
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toc toc quem é? toc toc toc quem é? toc quem é? toc toc toc quem é? toc toc quem é? toc quem é? toc toc quem é? toc toc toc quem é? toc quem é? toc toc toc quem é? quem é? toc toc toc quem é? toc quem é? toc toc quem é? toc toc quem é? toc toc toc toc quem é? toc quem é? toc toc quem é? quem toc é? toc toc toc quem é? quem toc é? toc toc quem é toc? toc toc quem é? toc toc quem é? quem téoc ? toc toc toc quem é? toc quem é? toc toc quem é? toc toc toc toc quem é? toc quem é? to cq uemé? toc toc quem ét o?c quem?? oc toc toc quem é? tocétocéquem é? toc toc toc quem é toc toc quém?e? toctoc ttoc qúem e??toc quem? toc quem é? toc toc quem é? toc quem toc é? toc quem é? sou o transtorno obsessivo compulsivo.
Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 13h52
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Síntese do micro-estatuto do ácaro

De 16 de Novembro de 2.549 (calendário budista)
Dispõe sobre o Estatuto do Ácaro.
Título I – DAS DISPOSIÇÕES PRELIMINARES
Art. 1º. A presente Lei dispõe sobre a proteção integral ao ácaro e seu poder alergênico.
Art. 2º. Considera-se ácaro, para os efeitos desta Lei, o aracnídeo polífago e cosmopolita a parasitar e provocar no escritor e demais pragas, cujos ideais excedam a dimensão de 0,15 milímetros, sarna e alergias cabíveis.
Art. 3º. O ácaro frui de todos os direitos inerentes ao escritor, sem prejuízo da proteção integral que esta alude, assegurando-se-lhe, por lei ou por quaisquer meios escusos, todas oportunidades e facilidades, a fim de lhe facultar a organização, invasão e instalação em ambientes eivados de intelectualidade, moralidade e, precipuamente, espiritualidade, onde se forjam e se consolidam ideais anti-acarianos reduzidos a autos.
Título II – DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS
Art. 4º. Assegura-se ao ácaro todo o direito de minar a saúde e o bem-estar do escriba, mediante a efetivação de políticas públicas que visem zelar pela incubação, nascimento e desenvolvimento acariano longe da luz e do ar, em umidades dignas de sua existência.
§ 1º. O ácaro fêmea sob estado incubatório receberá atendimento pré e perinatal prioritário em relação à escritora sob estado gestatório, independentemente da gravidade das contrações e da ruptura da bolsa desta.
§ 2º. O ácaro portador de deficiência receberá atendimento especializado e integralmente custeado pela escritora-representante legal da criança perfeitamente sadia em processo de alfabetização.
§ 3º. (Revogado)
(continua logo abaixo)
Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 19h11
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Título III – DO ANIMUS DEFENDENDI A PRIORI
Art. 5º. O ácaro, ainda neonato, já detém a faculdade de gerir a liberdade de desrespeitar e lesionar a suposta dignidade artística e integridade física de escritores. Parágrafo único. Nenhum ácaro inicia uma agressão, mas age sob o escopo da legitimidade defensiva preordenada, a qual abarca:
I – A violabilidade da integridade orgânica de quem alega escrever em primeira pessoa porque assim entende falar de si mesmo com mais proximidade de si que o outro dele, sem que os heterônimos percebam estar sendo acareados;
II – Entupir as cavidades pulmonares de quem vale-se de fábulas fascistas protagonizadas por bichinhos cuja maciez reacionária relega aracnídeos ao desserviço, esquecimento, desprestígio, exclusão;
Parágrafo único. Um ácaro jamais poderá importunar um semelhante, salvo se este resiste em importunar um escritor.
Título IV – DISPOSIÇÕES GERAIS E FINAIS
Art. 6º. Melhor um ácaro ocioso sobre o sofá que um bilhão de neurônios inspirados, bem-dispostos à criação.
Art. 7º. Toda a sordícia textual outrora e ora produzida e fomentada significa celebração contratual trabalhista com neurônios – seres muito menores que ácaros.
Art. 8º. Qualquer obra-prima configura ato ilícito hediondo, pois a vida acariana não pode sobreviver à luz tampouco repeli-la.
Parágrafo único. A luz está para o ácaro assim como o texto psicografado por um vendedor de churros está para um diabético terminal.
Art. 9º. O meio mais eficaz de provocar alergia no escritor é hospedar uma nação em seu teclado, mesa, escrivaninha ou esboço de futura obra.
Art. 10. Escritores excelentes de cama vivem em coma, destarte incorrem numa alergia menos gravosa que asmáticos.
Art. 11. Não há um só ambiente visitado por um escritor que não tenha sido infecto por um ácaro antes.
Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 19h10
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Refrão
Graças à benção, encosto no nariz “errebitado” e pareço tocar numa camada de isopor, cuja melodia emitida remete ao do wafer sendo pisoteado pelo bafo obturado. Cochilei. Os demais hilotas abreviaram o expediente sem aparar as arestas da bajulação ofídica. Não de mim: do doutor que insinuo sequer simularam adeus-bom-feriado. O celular acaba de ser expelido pelo bolso e se desconjunta todo enquanto me faço monarca fazendo o marrom. Instaurei bem o dia. Com o pé direito, meia furada, baforando qual um saci. Cochilei e, num pesadelo-vapt, desperto preso à pausa-vupt. Ao redor a textura-tessitura-textual. Um refrão me escolta.
Apostei com a ascendente de minha descendente que no marmitex de hoje veio chuchu em vez de abobrinha, e não pepino. Prejuízo valorado em cem reais. Desinterei a grana da passagem rumo a Campinas. Onde lucraria quinhentos reais vendendo marmita.
Perdi um fã. Contei-lhe sobre o amigo imaginário de meu rebento bastardo. Este tonitroou que a figura-Lula parece ter sido um indigente recolhido a uma instituição de caridade, bem lavado e alimentado lá. Mesmo sob paramentos-paletós-ternos-gravatas sua dicção em riste denuncia sua origem andarilha. Adicionou ainda que o perfil de nosso primeiro mandatário se amolda (e)ternamente ao de presidente de associação de moradores de bairro, posto com o qual deveria se contentar. Tsc. O povo deu corda, corda deu, doeu: o mendigo bem lavado entusiasmou-se. A vocação messiânica de Lula desemprega demônios. Meu ex-fã perguntou como eu poderia dar trela a gente preconceituosa assim, e rasgou nossa linda amizade em flocos – como se rasgasse o santinho adversário. E ferida tocada, pré-firo Geraldo: disse àquele que Alckmin parece o flautista de Hamelin: o talentoso rapaz hipnotiza ratazanas, conduzindo-as até tirá-las do território, malgrado nela se fixe, sorrateiramente. Geraldo não se deu conta de discursar para um grande país, retifico, país grande, e não para Smallville. Tsc. Consolo tardio.
Um vizinho de infância requis mediante ofício oriundo do Conselho Tutelar um paliativo rabular. Estendo as cáries mesmo amargurado com o fato de o assistido haver me subtraído, na alta infância, tampinhas premiadas, as quais valiam um copo do trapalhão Zacarias-criança (redundo?) estampado em cores da Pepsi, em que nunca pude tomar Coca.
Um mestrando em letras doutra cidadela, indicado por um homem das letras, telefona-me, interessado em apurar se sou escritor e se topo ser objeto duma entrevista. Ele se queixa, no celular, do chá que não domou a cólica tepeêmica. Recomendo-o tomar chá elaborado a partir de cogumelos direta e rigorosamente extraídos e selecionados do esterco defecado por ruminantes gerados in vitro, de seis em três horas. Também norteio-o a tomar chá de Santo Daime (com ayahuasca transgênica), cujas propriedades reidratam o paciente em prejuízo de nutrientes e sais minerais gorfados após a ingestão oral do primeiro chá citado: estratagema para me safar apenas do questionário com fins acadêmicos, não dos quesitos formulados no exame de disfunção mental.
Clodovil descobriu minha quilofagia cristalizada toda vez que vejo a dourada agulha de Esper. Clô ganhou. Vai decorar o sarau e infernizar colegas com as cores do paraíso gay.
(continua abaixo)
Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 12h21
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Perdi meu útero. Havia um porta-retrato contendo a fotografia da imagem de N. Senhora de Fátima sobre a mesa: presente da mami. Hoje ela veio me visitar. Notou que substitui a foto, e se retirou da sala como se houvesse expulsado-a da sala.
O namorado. O cara enfim me exibiu seu-meu falo fashion, com surfaces e colágeno implantados, via webcam (conforme solicitei no Valentine’s Day pretérito, e protelado até então). Perguntou, carente, se eu o havia contemplado. Respondi não haver conseguido enxergar nada porque... (antes de explicar, ele já havia se desconectado pra sempre de meu mono-ânus).
A paciência caniça. Uma prima indagou-me se eu tinha o pau grande. Ratifiquei ter o clitóris avantajado ou ser um eunuco dos pés à cabeça ou qualquer coisa hifenizada. Que só transava com amigas imaginárias de inimigos reais. Portanto me lavava antes de lavar a camisinha.
A amiga de apreço mascante de cabelo despertou chorando, apaixonada. Consolei-a afirmando que aquela virose havia me pegado também. Ela acresceu haver nascido assim, apegada demais à vida. Eu disse que a vida me oferece uma teta bem murcha ultimamente. Sorte estar adaptado ao leite de soja e outros leites.
A credibilidade-emprego com um vereador. Asseverei que "na-Cingapura-políticos-brasileiros-se-sentiriam-completamente-desprezados-pois-lá-inexistem-garis", numa toada só.
Meu irmão, arrependido, havia comido a bunda assada dum traveco. Eu o confortei: “chinês come coisa muito pior crua.”
O chegado, ora refinando conhecimentos teologais em Roma: “Vocês, estudiosos, atribuem importância à teologia como se Deus se importasse com isso. Estude teleologia!”
Ônus no firmamento, com a idéia-fóssil: um ser que não pode nada sobrepuja aquele que pode tudo mas nada faz.
Perda do título de eleitor, porque votar nulo constitui ato ruim vinculado a uma obrigação pior. Anula o voto o bobo, vota no tolo o supramentecapto.
Extravio do amigo imaginário em comum, comungado: na verdade, só há um mesmo rol de traquinagens confecionais da alta adolescência, nada mais-menos.
Perda da descautela com o amigo virtual: a net filtra o que o condena.
Perda do assento para o final.
Ganho com opacidade: sob holofotes os vultos não se aproximam para apreciação. O dano resseca e se racha. Sou o mosquito perdido a baterrebater, em ziguezague, até quebrar a lâmpada. Escrevo sob o pálio do estrago. Caço um jeito de sair deste escritório. Caço lobos guarás a uivarem qual Coyote: lobo norte-americano, da alcatéia G-8. Caço coelhos, paulos, Paulos Coelhos. Estes juramentam que quando se tem um sonho, todo o universo matuta a favor da concreção deste. Então, se sonho destruir todo o universo mediante motivos mera e altamente mesquinhos, esse mesmo universo há de me escorar? Típico de quem escreve ao som de Nelson Gonçalves – e perde o compasso. Noutro recinto. Sobre outra cera. Sob outro refrão.
Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 12h20
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Hematoma sim, maquiagem o caralho!

O advogado-chefe aconselhou-me a providenciar um par de óculos com lentes escuras. Pareço um dálmata: o olho empretejou. O nariz, antes pendente para a esquerda, agora sinaliza a Alckmin. Tentei a diplomacia. Mas assim como no segundo round do duelo (ou seria dueto?) eleitoral, na pacatez interiorana se distribui o vale-verdura, vale-transporte, vale-refeição, vale-mentira, vale-ringue, vale-tudo. Domingo pretérito apanhei. Cinco socos, e uma copada mal sucedida. Levei na cara. No terceiro soco pedi arrêgo, interrompendo a torcida organizada sentada ao fundo do bar (sempre nele). O sujeito me agrediu porque “se sentiu” ignorado: “(...) quem é você pra me dar as costas?! (...) só porque agora é um doutor?!” Ignorei bosta nenhuma. Aliás, não sabia da presença do gaudério nas dependências. Se soubesse de sua presença, talvez demonstraria indiferença também. Qual o mal nisso?
Algum nacional já experimentou perguntar, durante interurbano internacional, aflito, a uma criança de três anos, filha do amigo irlandês, onde ele está? Desesperador, né? A gente apela até para a mímica. O papo com o boécio fluía no mesmo nível de aproveitamento. O calhorda-eleitor se imbuiu do mesmo reflexo-lema adotado – e apregoado – por muitas gangues plantonistas: o não cooptado ao partido deve ser caçoado; o opositor (quem não votar no candidato assinalado) caçado: ironia, inversão de valor. Concidadãos rabugentos reprovam minha acídia eleitoral – ou, segundo reza o mito vigente, o principal instrumento da democracia: o direito ao sufrágio. Verbete galante, né? Rima com o “ágil” político a ascender e minar modestos projetos viáveis (distópicos). A saquear, maviosamente, a parca economia, e encalacrar o assalariado ora detrás de grades-siglas. Blablabla. A vangloriar-se da arraigada metodologia bandeirante, da sedimentada miscigenação ociosa – e gabosa disso –, a compensar-se com a exportação do soberano humor-tradição, peculiar do gladiador pé-rapado brasileiro, de Havaianas, a sambar, sob a cadência gringa. Blablabla. Ah. Sufrágio também se casa bem com o “frágil” – a um tempo só – encurralado e resignado votante, quando tecla o “menos ruim”.
Se o voto representasse uma poderosa arma nas mãos de quem sabe escolher, o eleitor não levaria tanta surra do candidato eleito. O poder de escolha de representantes do povo significa direito coisíssima nenhuma, em virtude de ser o sujeito consciente da cidadania coagido, e até punido, se não exercer tal favor. O brasileiro se envolve na briga que parece gostar de apanhar. Há uma maneira de soquear colarinhos impecáveis: recuar e desmantelar o ringue cujas regras, meios de defesa e ataque permitidos competem ao covarde interesse estatal regimentar. Quem leva vantagem: o eleitor ou o eleito? Pôncio Pilatos lavou suas mãos; eu o rosto inchado. O Brasil apanha porque joga limpo. Ah se o voto fosse facultativo e ninguém comparecesse na sua seção para votar... Utopia. Ingenuidade. Unanimidade impossível. Sempre remanescerá o paspalho seduzido pelos produtos de limpeza produzidos, embalados e esterilizados por Dudas Mendonças da vida.
Tanto o cacique A quanto o pajé L apresentam um discurso diurético a escoar antes mesmo da sonhada posse. A nação-taba, adotante da cultura "vale a pena ver de novo", considera seus candidatos ideais heróis, e sussurra qual a tiete, ao vê-lo engravatado como homem branco distinto, vertical, idôneo, casado, limpo, religioso, sujando-se com a graxa-ralé, comportando-se como o bom mocinho. O povo, deslumbrado com o arremedo, vota porque se sente enaltecido ao exercer a suposta cidadania civicamente cônscio, e não porque é necessário.
De qualquer modo, todo santo dia vou tomar socos na cara. Se ignoro alguém, polidamente, enquanto bebo, apanho dele, porque minha conduta inócua autoriza-o. Daí a polícia comparece no local, mas não lavra o malsinado BO – pois o Maguila evadiu-se do local tomando rumo ignorado – acobertado pelo dono do bar. As testemunhas entram num OVNI e somem. E a vítima – ou ladrão de auto-estima? – desconhece o paradeiro do pugilista. Os PMs me conduzem ao Pronto Socorro. As médicas, quase solícitas, pedem-me para eu mesmo me lavar na pia, com um pano suspeito no tocante à textura, cor, cheiro, origem, função. “Tome aqui o atestado de corpo de delito, caso pretenda processar o sujeito.” Respondo que mereci a surra. Sem ranço, asseguro não ir ferrar o vencedor do pugilato (termo circunstanciado de ocorrência na 43ª DEPOL, ação no Juizado Especial Criminal = dois anos de contenda: eu, hein!), pois não mereço sequer receber uma cesta básica – a micropena provavelmente na qual o pugilista incorrer-se-á, se condenado (portanto, sendo o pião-peão (brinquedo na mão de adultos e crianças) que é, não disporá de recursos suficientes para arcar com as custas processuais, honorários advocatícios e diligências de oficial, sem o prejuízo do sustento próprio e da filha, sendo assim – pasmem! – recorrerá aos auspícios da Justiça Gratuita, à luz da Lei nº 1.060/50, como sói suceder, no único escritório da Defensoria Pública disponível na Comarca, onde trabalho, ocasião em que será atendido pelo assistente-doutor aqui.
Vou desfilar com lesões corporais leves dolosas recebidas de partidários também. Tanto dos da direita, quanto dos da esquerda, centro. Recuso-me a votar em A ou L, por conseguinte, sou incluído nalgum cadastro de Schindler. Tomo, na cara roliça, socos-pontapés-copadas-ameaças-fodasses. Mas tomo também vergonha na cara: não vejo no espelho nenhuma vítima. Prefiro assumir minha condição transitória de dálmata e contínuo fracote (com um olho roxo), a perambular lento qual um urso panda (com dois olhares negros) acovardado detrás de um par de óculos, ou, genuflectido, detrás do “santinho”, contíguo, que o decepcionou. No Brasil, o voto compulsório camufla um ato ditatorial, pois só há verdadeira democracia quando se pode optar entre participar ou não de uma briga, da qual somente o eleitor que sai com hematomas, lesões e seqüelas mais graves.
Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 22h45
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